Lanterna


A Festa da Lanterna e reflexões sobre a peça

Aproximamo-nos do Inverno e o dia gelado faz as crianças chegarem gorduchas de tantos casacos. Ao longo da manhã, o sol de Outono, o dia límpido como cristal e o céu de deslumbrante azul, vão aquecendo nossas almas e nosso corpo. Os casacos vão formando pilhas em nossos braços, enquanto as crianças correm felizes, desfrutando da beleza que a natureza oferece nesta época do ano. Lindas Lanternas começam a ser confeccionadas pelas crianças para iluminar os caminhos no dia desta bela Festa.

Nesta estação de notável transparência e luminosidade, os dias vão escurecendo mais cedo, e nós, adultos, sentimos a necessidade de um recolhimento maior. Surge com força a necessidade de olhar para dentro de nós mesmos, de reavaliar, de ensimesmar-se e perguntar se nossa luz interior guia verdadeiramente nossos passos, ou se estamos somente sendo levados pelos chamados exteriores do mundo. Esta pergunta nos move como adultos e é uma grande oportunidade de introspecção, autoconhecimento, descoberta e redirecionamento. No entanto, esta luz interior pode muitas vezes ficar ofuscada e precisamos estar conscientes disto para ter a força e a fé de reavivá-la.
A singela história da Peça “ A menina da Lanterna” que é apresentada pelos pais às crianças, conta simbolicamente esta caminhada em busca da Luz interior.

Na peça a menina – que representa cada ser humano em sua luta de evolução, transformação e crescimento interior- perde sua luz e agora necessita encontrá-la. Depara-se primeiro com alguns animais que seguem seus instintos e não tem a capacidade de reflexão e de fraternidade. Ocupados com sua própria sobrevivência e necessidades, não podem parar para ajudar. Esta atitude não faz parte de sua índole animal.

Mas algo surge para indicar o caminho a este ser que busca Luz; e como os navegantes do Renascimento, a menina recebe a indicação das estrelas sobre qual o caminho a seguir. E este caminho aponta para o Sol, nossa grande fonte de vida e luz.

Trazendo agora o lado humano e seguindo a tradição das quermesses e festas populares do Brasil, nós teremos também em nossa Festa um lindo mastro em homenagem aos três Santos Joaninos: Santo Antonio, São João e São Pedro. Mas o que eles teriam a ver com a peça da Menina da Lanterna?

Santo Antonio, na tradição popular é o “Santo casamenteiro”, mas imaginativamente, podemos dizer que ele une em cada ser humano o feminino e o masculino. Ao vermos a doçura da imagem de Santo Antonio carregando a criança, entendemos este lado paterno e materno unidos em um só ser. Na peça da Lanterna as presenças do sapateiro e da fiandeira, representam estas forças. Seres humanos em seu trabalho, mas com capacidade de compaixão. Abertos a amparar o outro que busca seu caminho.

São João é aquele que abre caminho, que se torna menor para que o outro possa brilhar em toda sua luz. São João tem o fogo interior e batiza com água. Na maior parte das imagens, São João é representado como uma criança. Esta singeleza, pureza de alma e humildade é o que em geral as próprias crianças têm. As crianças carregam gratidão, confiança e doçura. A capacidade de perdão está sempre presente nelas. A síntese desta imagem de altruísmo é aquela que é transmitida pela peça quando a menina retorna já com sua luz e pode doá-la a quem não tem. A humildade e o amor representados neste ato da criança que doa o que conquistou, representam a essência de São João.

Por fim temos São Pedro, aquele que no dito popular “cuida das portas do céu”. No Nordeste e Norte de nosso país, a procissão de barcos que é realizada no dia 29/6, dia de São Pedro, encerra o ciclo das festas Joaninas e, em alguns lugares, com a Festa do Boi. A beleza, simplicidade e candura dos barcos iluminados com as lanternas, representa esta luz que é mandada para outros pontos, para ser distribuída bem longe.

Na peça, a menina recebe a luz do Sol, o qual representa o Cristo. Ao conquistar, através dele, sua luz interior e estar pronta a partilhá-la, a menina revivifica em si o seu ser divino, para cumprir aquilo que deve ser cumprido no plano terreno. Une o que está dentro ao que está fora e tece seu caminho de volta para casa, distribuindo a todos a sua Luz.
Esta é somente uma interpretação bem pessoal e de meu ponto de vista Cristão Livre. Minha intenção é somente tentar esboçar para vocês o quão especial é a Festa da Lanterna e como é maravilhoso para as crianças assistirem esta grandiosa imagem sendo trazida por seus pais.

Que nossa toda Festa da Lanterna seja feita de luz, fraternidade e amor.