Conte um conto

Nesta página você irá encontrar vários contos para as crianças. Separamos alguns que podem ser usados durante as épocas do jardim waldorf e outros em qualquer momento. Aproveitem!

Outono

Por que as folhas mudam de cor

Contada por Ron Evans, contador de historias dos Ojibwee-Cree, nativos norte-americanos

Recontada por Cathy Van Maren

Traduzida por Maria Cecília Bonna

Certa manhã há muito tempo atrás, o Povo acordou e percebeu que ninguém havia dormido muito bem. Começou a esfriar e eles sentiam frio à noite e acordavam por causa do frio. Eles não sabiam o que estava acontecendo, eles nunca tinham passado por isso antes. E toda manhã era a mesma coisa – eles estavam ficando cansados e doentes por causa do frio – e logo as geadas começaram a cobrir o solo. Até então eles só conheciam o Verão e não sabiam mais o que fazer.

Até que um dia finalmente decidiram procurar Wii saa he ts`k. Afinal ele era o criador de tudo, ele saberia o que fazer.

Foram até sua cabana e chamaram.

– O que querem vocês? perguntou ele.

– Criador da Terra, estamos com frio e tem uma porção de coisas brancas sobre a terra nesta manhã. O que está acontecendo?

– Ah, sim, respondeu ele, aquilo é a minha nova invenção. Eu estava cansado de só ter Verão o tempo todo. De agora em diante vamos ter um pouco de calor – é o Verão – e depois teremos um pouco de frio. Eu chamo o tempo frio de Inverno. E quando tivermos Inverno, teremos gelo, geada e neve.

– Mas Criador da Terra, nós não podemos viver assim! Nós não estamos preparados para o tempo frio e não sobreviveremos se o senhor não fizer alguma coisa, disse o Povo.

– Ah, isso é problema de vocês! disse o Criador da Terra- Não, Criador da Terra, o problema é seu! disse o Povo com firmeza. O senhor criou tudo, agora é sua responsabilidade cuidar de todos nós.

Eles discutiram por algum tempo até que finalmente o Criador da Terra concordou em procurar uma solução para o Povo. Afinal de contas, ele era um ser incrivelmente brilhante e criativo, tinha criado o mundo, então é claro que ele saberia exatamente o que fazer para ajudar o Povo a sobreviver ao Inverno.

Conta a história que o Criador da Terra roubou fogo, assim poderia dá-lo aos 2-Pernas e ainda como ele inventou os casacos de pele para manter os 4-Pernas quentinhos. Deu asas ao Povo-Pássaro para que eles pudessem voar para o Sul e lá se aquecessem. Todos ficaram então bem satisfeitos. O Povo-Pássaro voou logo para o Sul para fugir do frio e os outros voltaram para casa felizes por estarem quentinhos. O Criador da Terra também tinha o fogo agora e estava em casa sentado diante dele.

Foi então que ele ouviu um som bem baixinho. Alguém chamava seu nome de fora da cabana. Quando abriu a porta para ver quem era não encontrou ninguém. Finalmente, olhou para baixo. Lá estava o Povo Miúdo – o Grilo, o Gafanhoto, a Rã, a Libélula e outros – todos juntos gritando:

– Criador da Terra, o que está acontecendo? Por que está tão frio aqui fora?

Ele então explicou que agora haveria uma estação quente, o Verão, e uma estação fria chamada Inverno. Mas eles disseram:

– Ah, está tudo bem para você e para os outros, mas e nós? Não vamos sobreviver a este frio. O senhor tem que nos ajudar também!

Ele concordou e disse:

– Está bem, vocês podem ter o fogo como o que dei aos 2-Pernas.

Então todo o Povo Miúdo se aglomerou dentro da cabana do Criador da Terra em torno do seu fogo. Acharam aquilo maravilhoso. Mas, como se sabe, o fogo é extremamente atraente e suga para dentro dele o que estiver por perto. Bem, o Gafanhoto chegou um pouco perto demais e antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, ele foi sugado para dentro do fogo! O Povo agarrou suas pernas e finalmente conseguiram puxá-lo para fora. Mas seus pelos tinham sido queimados e suas pernas tinham ficado espichadas. Ele ficou parecendo um pobre esqueletinho chamuscado (e continua assim até hoje).

– Criador da Terra, isso não vai funcionar, é muito perigoso para nós!

– Sim, eu sabia que não era a melhor solução…., disse o Criador da Terra, ainda cheio de si. O que eu acho que realmente vai funcionar para vocês é dar-lhes pelos como dei aos 4-Patas. Ele então criou um pequeno casaquinho de pele e embrulhou o Grilo com ele, depois colocou-o no chão.

– Como está agora?

O Grilo achou muito bom, confortável e quentinho. Decidiu voltar para casa. Só que ele não conseguia mais saltar, pois suas pernas estavam embrulhadas no casaco de pelos. Ele só conseguia se arrastar muito devagar pelo caminho. Hoje em dia, chamamos esse bichinho de Taturana.

Wii-saa-he-ts`k então disse que realmente sabia que a melhor solução mesmo era dar asas ao Povo Miúdo, como ele tinha dado ao Povo-Pássaro. Ele então pegou a Libélula e colocou nela asas e pediu que voasse o mais que conseguisse em direção ao Sul e voltasse para contar-lhes até onde tinha chegado (se ela não fosse rápida o suficiente ou não conseguisse ir muito longe, asas não resolveriam o problema).

O Povo Miúdo esperou e esperou que a Libélula voltasse. Finalmente ela chegou cansada e arquejante.

– Eu consegui ir até a borda do prado antes de voltar, disse orgulhosa.

Mas o Povo sabia que isso não era o suficiente para fugir do frio. Eles precisavam de outra solução.

O Criador da Terra pensava e refletia, mas desta vez estava sem ideias. Depois de um tempo, convocou um Conselho de todos os Povos para encontrarem uma solução para o problema do Povo Miúdo.

O Urso Pardo ofereceu seu casaco de pele.

– Eu durmo o Inverno inteiro, explicou. O Povo Miúdo pode dividir comigo o casaco de pele que eu não me incomodo.

Então o Povo Miúdo pulou para dentro do casaco de pele do Urso Pardo e ali ficou. Por algum tempo pareceu que iria funcionar, mas logo começaram as tosses e espirros e um por um todos começaram a sair de lá (exceto o Piolho a pulga que ainda gostam muito de lá). Como sabe o Criador da Terra, o Urso Pardo é sujo e fedido e o Povo decidiu que não poderia viver lá o Inverno inteiro.

Outra solução precisava ser encontrada.

A maior parte do Povo-Pássaro já tinha voado para o Sul, mas alguns ainda estavam lá, aqueles que voam mais tarde. O Ganso disse que levaria o Povo Miúdo em suas costas quando partisse para o Sul. A Rã disse que poderia tentar, para ter certeza de que era seguro. Mas quando o Ganso subiu apenas alguns metros do chão, a Rã já estava com medo e gritava: Não voe tão alto!

– Não seja boba, Rã! Se eu não voar mais alto, vamos bater nas árvores. Segure firme! E o Ganso levantou voo mais alto. A pobre Rã ficou tão assustada que largou o pescoço do Ganso e começou a cair do céu. Ela teria morrido se suas patas traseiras não tivessem enganchado num galho no alto de uma árvore. Para cima e para baixo, ela ficou balançando como se fosse um ioiô. Ela se esticou tanto que quase partiu em dois, até que finalmente suas patas se soltaram do galho e ela aterrissou no chão: Plop! Até hoje se pode ver os efeitos da queda – a Rã era gorda e redonda como o Sapo, mas hoje suas patas são muito compridas, sua cintura é fininha e seus dedos são abertos e espalhados por causa da aterrisagem no chão.

Bem, aquilo também não ia funcionar. O Povo pensou e pensou, mas não puderam chegar a nenhuma outra solução. Alguns começaram a chorar, pensando que certamente o Povo Miúdo iria morrer se nada fosse feito. Tudo ficou muito triste lá.

De repente, uma voz doce e gentil falou de fora da cabana e todos foram ver quem era.

– Enquanto vocês se reuniam no Conselho, nós fizemos o nosso próprio Conselho para encontrar uma solução para o problema do Povo Miúdo. E nós temos uma solução.

Ali, do lado de fora da cabana do Criador, estavam o Plátano e a Bétula.

– Somos representantes do Conselho dos Espíritos das Velhas Árvores. E temos a solução para o problema. Quando o tempo começar a esfriar, nós, o Povo-Árvore, iremos nos despir e deixar cair no chão nossas folhas. Este cobertor de folhas irá proteger o Povo Miúdo do frio e da neve durante o Inverno.

O Povo começou a refletir. Imaginaram o cobertor de folhas grosso e quente protegendo o solo do frio e o Povo-Miúdo, aquecido e seguro embaixo do cobertor. Sim, isso iria funcionar!

O Povo começou a comemorar! Começaram a cantar e dançar, pegaram seus tambores para comemorar e logo havia a Pow-Wow para homenagear a maravilhosa ideia das Árvores Antigas. O Criador da Terra, Wii-saa-he-ts`k estava tão feliz que levantou a mão pedindo a palavra.

– “Árvores Antigas, vocês estão dando um maravilhoso presente para o Povo! Para honrar esse sacrifício que vocês farão, eu pintarei seus cobertores em lindas cores – vermelhos, amarelos, laranjas e roxos – assim a cada ano nós nos lembraremos que vocês estão nuas e frias no Inverno para salvar o Povo Miúdo. E a vocês, Plátano e Bétula, que foram as representantes do Povo-Árvore, eu darei para seus cobertores as cores mais vivas e brilhantes de todas.

E é por isso que, até hoje, as folhas mudam de cor a cada Outono.