Formação de Hábitos e a Imitação...

Formação de Hábitos e a Imitação...

de Silvia Jensen, educadora Waldorf

O período da primeira infância que vai do nascimento a troca dos dentes por volta por 6, 7 anos é a chegada da criança a terra, é o tempo que ela tem para se adequar fisicamente ao mundo, construir seu corpo físico , ter seus primeiros contatos sociais. O que ela tem disponível em si para este aprendizado?
Sabemos que o mundo é cheio de novos começos. Não só a criança porem todos nós temos que viver nos adequando. Ao ingressarmos em um novo emprego, num curso, sempre há algo que temos que alinhar , como horário, a vestimenta, hora das pausas, local etc.
Entrar num Jardim de Infância é também um novo começo e que começo! Como a criança se encaixa nele? Pode ficar gritando o tempo todo, falando alto, comendo quando quiser, desarrumando o que os outros construíram, não ficar sentada à mesa na hora da refeição, usar o banheiro indevidamente?
Com certeza não!
Como é que ela vai sabendo onde estão os limites? O que a norteia? Parece complicado, mas não é. Quem é o modelo para ela crescer em harmonia com o social são os bons exemplos que ela tem ao seu lado. A faculdade que ela traz consigo do berço é a da imitação, e através disto ela se torna o que ela é, isto é: ela é o que ela imita. Diferentemente do adulto saudável, que já tem as três qualidades da alma em equilíbrio , o ato de pensar, de sentir e de agir, a criança nesta idade conta com o apoio do agir, porem ainda sem direção. É isto que ela trabalha nesta primeira fase da vida. Através do agir, do movimento ela exercita seu sistema nervoso que por sua vez vai se mielinizando e trazendo “luz”, “conexões”, vai dando sentido e significado aos seus atos. Isto é um processo que demanda tempo e exige uma atmosfera de “sonho” no sentido de não ficar perguntando tudo para a criança e sim o adulto sendo o exemplo e sabendo o que é certo na hora certa.
Numa sociedade onde mais e mais estamos rodeados por tecnologia como pode a criança aprender processos com começo, meio e fim? Somente se nós adultos reconhecermos nisto um sentido de valor positivo e passarmos a exercitar na frente da criança atividades como : varrer a casa com vassoura ao invés de aspirador de pó, lavar a louça com esponja e sabão, ao invés da maquina automática, lavar o carro com balde, água e pano, e não levar ao posto da lavação de carro, amassar o pão com as mãos e não comprar o pão da padaria da esquina e assim por diante. Não quero dizer com isto que neguemos a tecnologia que veio muito a nosso favor, mas que as atividades possam também serem feitas a mão, no passo da criança, para o bem dela, de seu desenvolvimento. Ela tem que ter modelos a serem imitados para usar seu potencial de movimento com sentido. O que mais vemos hoje são crianças se movimentando de modo caótico, não sabendo coordenar mãos, pés, batendo nos outros e nem percebendo o que fizeram , atirando e gritando. É isto que queremos para nossas crianças?
Aprender e educar significa repetir, uma, duas, três, muitas vezes a mesma atividade. Vocês já devem ter percebido que criança não cansa de tentar? Com certeza o mundo seria muito diferente se nós adultos tivéssemos a mesma persistência que tínhamos quando éramos crianças.

Aprender e educar significa repetir, uma, duas, três, muitas vezes a mesma atividade. Vocês já devem ter percebido que criança não cansa de tentar?  Com certeza o mundo seria muito diferente se nós adultos tivéssemos a mesma persistência que tínhamos quando éramos crianças.
Partindo de algo que foi muitas vezes repetido surge o hábito. Pode ser um bom ou mau hábito. Tomemos como por exemplo, a criança que acostumou-se a ganhar do adulto o que quer chorando, esperneando fazendo manha, isto é um bom hábito?
Por outro lado ela pode tirar o calçado e coloca-lo na sapateira ao entrar na casa, isto é um bom hábito? Como diz Dr. Schoorel , o hábito ganha carona na imitação e ali se instala. Deste modo cada hábito que instalamos em nossa vida nos convida a refletir se ele faz sentido ou não, se ele me liberta ou me escraviza. Já diz o ditado popular : é de pequeno que se torce o pepino não é?
Então , está nas mãos dos Pais e educadores o discernimento do que é bom para o crescimento da criança. Posso dizer de minha pratica que incentivar uma criança a comer frutas, legumes, saladas mesmo que a principio ela faça cara feia, quando ela conquista este habito ela sai fortalecida, sente-se inclusive vitoriosa, reconhecida pelos colegas, sua autoestima aumenta. O mesmo com saber dobrar uma roupa e coloca-la no cesto, tirar o prato da mesa, enxugar a louça, varrer o chão, guardar os brinquedos de volta em seu lugar depois de brincar, usar o banheiro de modo que os outros o encontrem em bom estado e assim por diante.
Esta nossa conversa é um convite para olharmos que valores estamos passando aos nossos filhos, como estão nossos hábitos, pois a partir deles é que vivemos.
O que é a vida senão um grande exercício social onde tenho que o tempo todo ver até onde eu estou colaborando ou não para o bem do todo. Com certeza educar crianças é uma tarefa muito nobre, ali reside o futuro, o nosso e o deles.

Março de 2014.

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